Simulando o “Novo Trilema Financeiro Global”
IFDs- Insights de Finanças Digitais
Insight 02
Simulando o “Novo Trilema Financeiro Global”
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Em nosso Insight 01 defendemos que hoje vivemos um “novo trilema financeiro global”. O sistema financeiro internacional está tentando atingir três objetivos simultaneamente (mas só dois dos três podem ser atingidos de uma vez):
- Credibilidade Monetária (através da nova gestão do Federal Reserve - FED, o banco central dos EUA);
- Sustentabilidade Fiscal (através da nova gestão do Tesouro estadunidense)
- Estabilidade Financeira (através do sistema bancário e das instituições financeiras não-bancárias).
Assumindo-se este contexto como dado, o resultado é muito semelhante ao “trilema impossível“ de política monetária: em um mundo de elevada mobilidade de capitais, mercados financeiros globalizados e crescente digitalização do crédito, torna-se extremamente difícil maximizar simultaneamente os três objetivos (1).
Mas como ficaria uma matriz de cenários deste novo trilema? A seguir examinamos cada cenário.
I - Cenário A: Credibilidade Financeira + Sustentabilidade Fiscal
Este é o cenário tradicional da ortodoxia macroeconômica. O governo preserva:
dívida pública sustentável;
inflação controlada;
regras fiscais respeitadas;
confiança dos investidores.
Entretanto, para preservar essa credibilidade, o sistema financeiro tende a operar com elevada alavancagem privada. Consequências:
expansão do crédito privado;
crescimento do shadow banking (sistema bancário sombra);
bolhas em ativos;
maior fragilidade bancária.
É praticamente o modelo observado antes de:
a Crise Financeira Global de 2008;
parte da experiência britânica dos anos 1980-2007;
parte do modelo americano pré-Lehman Brothers.
Em outras palavras, disciplina fiscal não impede instabilidade financeira.
II - Cenário B: Credibilidade Financeira + Estabilidade Financeira
Imagine-se agora que o Banco Central e os reguladores consigam impedir crises financeiras.
Temos então:
bancos sólidos;
liquidez abundante;
mercados funcionando;
moeda confiável.
Mas isso exige que o governo intervenha frequentemente. Resultado:
déficits permanentes;
aumento da dívida;
expansão fiscal;
emissão crescente de títulos.
O Estado passa a sustentar o próprio sistema financeiro. É um regime de:
QE (Quantitative Easing/Afrouxamento Monetário) permanente;
garantias públicas;
bancos centrais comprando ativos.
Esse cenário lembra parcialmente:
o Japão desde os anos 1990;
parte da resposta dos EUA após 2008;
vários países após a pandemia.
A estabilidade financeira passa a depender do setor público.
Surge então a dominância financeira: o Estado não salva apenas a economia; ele salva continuamente o sistema financeiro.
III - Cenário C: Sustentabilidade Fiscal + Estabilidade Financeira
Aqui o governo controla rigorosamente as contas públicas e regula fortemente o sistema financeiro. O problema aparece em outro lugar: os investidores internacionais deixam de encontrar oportunidades suficientemente rentáveis. Consequências:
menor entrada de capitais;
crédito mais escasso;
menor inovação financeira;
menor crescimento potencial.
A credibilidade internacional enfraquece porque:
os mercados passam a enxergar excesso de intervenção;
há perda de dinamismo econômico;
o país torna-se menos atrativo para o capital global.
É um cenário próximo do observado em alguns países europeus após a crise do euro, onde a estabilidade foi preservada ao custo de crescimento estruturalmente baixo.
O centro do triângulo
O ponto mais interessante do nosso trilema é que nenhum vértice representa um equilíbrio permanente. Na prática, os países ficam oscilando entre eles.
Por exemplo:
2009–2019 (EUA)
→ Credibilidade + Estabilidade
QE
forte atuação do Fed
deterioração fiscal gradual
2020–2022
→ Estabilidade acima de tudo
déficits recordes
expansão monetária
apoio maciço aos mercados
2023–2026
→ Retorno à Credibilidade
juros elevados
redução da inflação
crescente preocupação com a dívida pública
Ao mesmo tempo, surgem tensões no mercado de crédito privado, financiamento imobiliário e liquidez, ilustrando como a busca por dois objetivos pode pressionar o terceiro.
A interpretação pela Teoria da Economia Informacional (TEI)
Na perspectiva da nossa TEI, esse trilema pode ser reinterpretado como um problema de coordenação informacional.
Os três objetivos correspondem a diferentes formas de confiança:
Credibilidade Financeira → confiança na moeda, na política econômica e nos contratos de longo prazo.
Sustentabilidade Fiscal → confiança na solvência intertemporal do Estado.
Estabilidade Financeira → confiança na liquidez e na continuidade da intermediação financeira.
O ponto central é que essas três formas de confiança não são independentes. Elas competem por um recurso escasso: a capacidade institucional de coordenar expectativas entre governos, bancos centrais, mercados e agentes privados. Em um sistema financeiro cada vez mais digital, global e baseado em fluxos de informação em tempo real, essa coordenação torna-se mais difícil.
Isso sugere uma extensão natural da nossa perspectiva: o “novo trilema financeiro internacional” pode ser visto não apenas como um conflito entre instrumentos de política econômica, mas como um trilema de coordenação informacional. A variável verdadeiramente escassa deixa de ser apenas o espaço fiscal ou a liquidez e passa a ser a capacidade de gerar e preservar confiança simultaneamente em três níveis — fiscal, financeiro e monetário — em uma economia informacional globalizada. Essa leitura aproxima o trilema da arquitetura conceitual da TEI e oferece um fundamento teórico mais profundo para explicar por que nenhum dos três objetivos pode ser maximizado de forma permanente.
(1) O trilema impossível (ou trindade impossível) é um princípio da economia internacional que estabelece ser impossível para um país manter simultaneamente taxa de câmbio fixa, livre mobilidade de capitais e autonomia na política monetária. Desenvolvido pelos economistas Robert Mundell e John Marcus Fleming na década de 1960, o conceito demonstra que a escolha de dois desses objetivos impõe restrições automáticas a


